segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Panbiogeografia e o conceito de vicariância

O botânico italiano Leon Croizat (1894-1982) é uma figura controversa na história recente da biogeografia. Baseado na metáfora de que "a vida e a Terra evoluem juntas" - que significa que as barreiras geográficas e as biotas coevoluem - Croizat, que trabalhou por muito tempo na Venezuela, desenvolveu uma nova metodologia em biogeografia, a 'Panbiogeografia'. Esse método consiste basicamente em plotar distribuições de organismos em mapas e conectar as áreas de distribuições disjuntas ou localidades de coleta com linhas chamadas 'tracks'. Croizat encontrou que tracks de grupos diferentes e não relacionados muitas vezes eram coincidentes e chamou os tracks comuns a vários grupos de 'generalized tracks', que indicam a pré-existência de biotas ancestrais, que foram fragmentadas simultaneamente por mudanças climáticas ou tectônicas. A originalidade está na idéia de que os organismos dispersam (aumentam suas distribuições) naturalmente e depois se tornam geograficamente isolados por eventos históricos comuns, dando origem ao conceito de vicariância.

Alguns autores, principalmente os que perteciam à escola dispersalista, dominante na época, desprezaram as contribuições de Croizat, considerando-o idiossincrático ou excêntrico. Outros consideram Croizat como um dos pensadores mais originais da biologia comparativa moderna, sendo que suas contribuições colaboraram para a fundação de uma nova síntese entre as ciências da vida e as ciências da Terra. Tendo sido seguida pela sistemática filogenética, a panbiogeografia de Croizat foi central para o desenvolvimento da biogeografia cladista ou biogeografia de vicariância.

Assim, uma ênfase inicial em dispersão sobre uma Terra estável foi substituída por uma idéia de co-evolução entre a biota e uma Terra dinâmica, de modo que a diversificação (origem das espécies) se daria primordialmente por vicariância. Talvez agora a biogeografia esteja se aproximando de um meio termo, que procura entender a complexidade envolvida na evolução de biotas influenciadas tanto por eventos de vicariância quanto de dispersão. Isso só é possível devido à evolução de metodologias capazes de "inferir o passado", reconstruindo a história da vida na Terra de modo cada vez mais preciso.

ps. Para entender melhor esse debate é preciso reconhecer a diferença entre "dispersal" que significa dispersão por longa distância de modo estocástico; e "dispersion" que se refere à expansão das áreas de distribuição dos grupos ao longo do tempo.

Referências:

Parenti, L.R., Ebach, M.C. 2009 Comparative Biogeography: Discovering and Classifying Biogeographical Patterns of a Dynamic Earth (Species and Systematics). Univ. of California Press. Vejam comentários sobre esse livro recém publicado aqui.

Morrone JJ. 2000. Between the taunt and the eulogy: Leon Croizat and the panbiogeography. INTERCIENCIA 25: (1) 41-47.

3 comentários:

Anônimo disse...

Olá,

Muito bacana o texto. A diferença entre dispersal e dispersion seria então que a primeira é relacionada a indivíduos em tempo ecológico e a segunda refere-se a população em "tempo evolutivo"?

Camila disse...

Olá,

Sim, faz sentido seu raciocínio. Dispersal = long distance dispersal = evento momentâneo e estocástico que envolve um ou poucos indivíduos e leva a um efeito de fundação.
Dispersion = range expansion = expansão da distribuição de uma população ao longo do tempo, não associada a evento de fundação.

Anônimo disse...

Ola,

Mas entao nem sempre dispersion esta relacionada com o tempo evolutivo?

Dando tempo ao tempo, uma espécie de briófita da Africa pode conseguir estabelecer uma pequena população no sul da Bahia (dispersal) e então expandir sua distribuição (dispersion) até o sopé dos Andes e o sul do México, porque os esporos de musguinhos sao espalhados facilmente pelo vento... se isso acontecer, o processo de dispersion ocorreria em tempo ecologico.

Por outro lado, e se o processo de dispersal tiver ocorrido no Plioceno? Avaliar a dispersão em longa distância não seria um enfoque nas populações de um taxon em tempo evolutivo?

Enfim, existe alguma tradução estabelecida para esses termos!?